domingo, 17 de junho de 2007

Cotas nas universidades...

Desde que começaram as discussões sobre cotas nas universidades tenho conversado com meus alunos sobre o tema. Talvez por ter sido professora de evolução na outra universidade que trabalhava, o assunto vinha à tona quando o tema da aula era variabilidade genética e eu entrava no assunto "raças". Já está certo que este conceito não é aplicável ao Homo sapiens, apesar das diferenças entre as pessoas existirem e eu achar que esta é uma das coisas mais bonitas da biologia (que porcaria seria se fôssemos todos inguais!). Bom, quando são mostradas as estatísticas de que há muito mais diferenças genéticas dentro de grupos (de diferentes cores, por exemplo)do que entre eles, fica bem claro, pra quem quiser ver, que não dá pra definir grupos do ponto de vista genético.

E as cotas? A esmagadora maioria dos alunos negros com os quais conversei é radicalmente contra. Hoje em dia, depois que você sai da universidade o seu empregador não quer nem saber em que lugar você ficou na classificação geral do vestibular... Pudera, isso em geral não diz o quão competente você é, nem o quanto conseguiu aprender na universidade, e muito menos o quanto você conseguirá aplicar o que aprendeu. Com as cotas, será que isso vai mudar? Será que um empregador ao ver um bacharel negro pedindo empregou não vai pensar: "ele entrou por cotas, será que é competente?", tipo da dúvida que não existia antes, já que todos entravam na universidade com mais ou menos o mesmo mérito (o daquela prova nojenta, que depois que você entra, ninguém mais leva em conta).

Na outra ponta estão os alunos do ensino médio e dos cursinhos por aí: antes a missão deles era "matar um japonês por dia pra passar no vestibular". E agora? Ouvi de uma amiga minha que o filho dela, que nunca tinha feito nenhum comentário racista, agora deu pra desdenhar alguns dos colegas, fazer piadinhas racistas e se sentir prejudicado porque não pode entrar em nenhum tipo de cota.

E dentro da sala de aula, já na universidade? Como fica a relação de alunos que entraram sem cotas com os alunos que entraram por cotas? Será que eles farão parte da mesma panelinha? Será que alguns alunos se sentirão superiores a outros? Isso tudo sem falar dos sistemas adotados pelas universidades pra definir quem entra ou não entra pelo sistema de cotas (vide o vexame recente da UNB). Isso de definir quem é negro ou não me lembra muito o início da eugenia nos EUA, que acabou com a castração involuntária de milhares de pessoas, antes de Hitler chegar ao poder na Alemanha (para uma referência mais concreta, leia "A Guerra Contra os Fracos, de Edwin Black).

Uma forma de contornar isso foi adotada por algumas universidades: cotas para alunos de escolas públicas, ou "cotas para pobres". Li uma crítica sobre as cotas para "pobres" adotada na Universidade Federal de Juiz de Fora: a esmagadora maioria dos alunos que entrou pela cota de escola pública foi de alunos do colégio da própria universidade, o trágico disso é que estes alunos em geral vêm de famílias que estão longe de ser pobres, e pior, a proporção dos alunos deste colégio que estraram na universidade não se alterou com o sistema de cotas. Resultado: a maioria dos alunos das outras escolas públicas continuam de fora.

Na minha honesta opinião, o que precisamos é de uma reforma séria no ensino básico da escola pública. Quando falo de reforma séria estou falando de acabar com a palhaçada institucional da progressão continuada, de melhorar as condições de vida dos professores (pelo pagamento de um salário pelo menos razoável), de estimular a capacitação dos professores (plano de carreira, por exemplo). Será que é pedir muito? A teoria da progressão continuada é linda, mas na prática, está piorando muito a situação, já que governantes e demais responsáveis pelas políticas educacionais parecem jamais ter lido do que se trata.

Outra coisa que precisa ser questionada é a necessidade de "universidade para todos". Vou ser bem antipopular agora, mas não acredito em qualquer coisa que seja para todos. Se eu tivesse poder pra isso, gostaria de instituir a "universidade para quem deseja estudar". É sério: nem todo mundo gosta de estudar, isso é real! Digo mais: nem todo mundo deveria ter que gostar de estudar. A sociedade deveria ser organizada de tal forma que qualquer tipo de trabalho bem feito fosse devidamente remunerado. Isso sim garantiria condições para todos. A universidade deveria ser um espaço sagrado, reservado para aqueles que de fato queiram estudar, qualquer um, de qualquer cor, credo, partido político, que tenha o objetivo claro de aprender e não de ter um diploma (parece loucura, mas tenho a nítida impressão que mais de 50% dos meus alunos não estaria na universidade caso tivesse acesso direto a um diploma...). Se as coisas fossem organizadas assim, aposto que não precisariamos nem de vestibular: cada um escolheria o que de fato quer da vida, e não haveria problemas de vagas nas universidades.

3 comentários:

Felipe Grazziotin disse...

Oi Karla.
Gostei do blog. Opiniões muito claras e sinceras (sem medo de ser impopular).
Bom, eu sou um defensor das ações afirmativas. Sei que não é a solução, longe disso... Pode até causar reações adversas (como um analgésico morfínico). Mas quando a situações de desigualdade é grave, como o caso brasileiro, acho que um paliativo é bem vindo. Temos obrigação de incentivar a formação de pessoas que não tiveram acesso a educação por culpa de anos de descaso e, como tu bem colocaste, passar bem no vestibular não é atestado de competência profissional. Essa arejada de esperança que a possibilidade de entrar numa faculdade por cotas gera em uma pessoa desfavorecida pode muito bem influenciar desde a pré-adolescência a vontade de estudar. É muito triste ver pessoas que notoriamente são mais capazes e gostam mais de estudar que os atuais universitários desperdiçados em atividades que visam somente a sobrevivência deles e das famílias, pois nunca tiveram uma chance. Já, antevendo críticas a minha posição, reafirmo que a solução é melhorar o ensino básico, melhorar a vida dos professores e tudo o que a maioria dos contrários as cotas argumentam. Mas enquanto isso não vem? O que fazer? Ações afirmativas no meu ver são pontuais e necessárias, mas não resolvem o problema. Como em qualquer doença (social ou biológica) devemos minimizar a dor e tratar o problema. Depois de ter sanado o problema tratar a dor não será mais necessário.
Abraços
Felipe

Karla Yotoko disse...

Pôxa Felipe, não conseguiria imaginar um desfecho melhor pra esse tema. Na verdade o objetivo é mesmo provocar a reflexão. Também acho que se o melhor dos mundos não pode ser atingido, talvez paliativos sejam a saída. Isso que você falou de estimular o pessoal a estudar talvez seja a consequência mais importante do sistema de cotas. Talvez isso até supere o perigo potencial do aumento do preconceito e do racismo (talvez também este aumento nem seja significativo no fim das contas...)

Hermes Fonseca de disse...

Oi karlinha,

Vou dar uns pitacos também. Acho que a cota associada a “raça” pode ser resumida como “atribuir um favorecimento a alguém com base em sua “raça”” o que inevitavelmente implica em “desfavorecer alguém com base em sua “raça””. Isto é racismo. Aqui não estou colocando minha opinião. É o que a palavra racismo significa!
Não existe racismo positivo. Em qualquer sociedade racista sempre poderíamos achar pessoas inteligentes que argumentariam bem em favor de seu ponto de vista. Seria possível, por exemplo, argumentar a favor da necessidade econômica da escravidão, por exemplo. O problema não é o racismo negativo, mas o racismo. Estávamos experimentando uma diminuição do racismo, como podemos observar comparando as opiniões de pessoas de diferentes idades.
Esta iniciativa de “racismo positivo” é um grande retrocesso, nos obrigando a discutir inclusive métodos para determinar a raça de cada um de nós; quando a tendência natural seria colocarmos a cor como mais um de tantos aspectos que variam entre nós, como estatura e peso. O que está mais de acordo com os resultados obtidos pelos estudos de genética.
Um argumento a favor das cotas é de que a falta de oportunidade passa de uma geração para outra. Consequentemente as crianças não nascem com oportunidades iguais. Também não aceito que as cotas por “raça” sejam a forma certa de tratar isto. Neste país nascem crianças sem oportunidade de estudar de todas as cores, porque descendem de escravos, porque descendem de retirantes da seca, porque são filhos de alcoólatras, entre outros. As cotas atendem uma destas categorias em detrimento das outras. Para aquele, que por sua cor não entra na cota, mas, como a maioria dos brasileiros, não teve acesso a uma boa escola, a universidade fica ainda mais difícil.
O que fazer então com relação à associação entre cor e renda? Simples. Esquecer a cor. A história deixa associações entre variáveis genéticas e econômicas/culturais no mundo todo. O problema não é o negro sem oportunidade, mas o homem sem oportunidade.
E o que fazer contra o racismo? Marcação cerrada diretamente em cima dele. E não vamos deixar este trabalho só para o estado. Você tem um amigo racista? Você tolera comentários racistas? Eu só tolero, ainda que detestando, o racismo em pessoas com mais de 50 anos, pois eles foram formados em sociedade diferente da minha e que um dia vai ser substituída. Quando encontro uma pessoa jovem racista (ou com qualquer outro preconceito ridículo), vejo isto como um indicador de mal-caratismo e tendo a excluir no meu convívio, além de criticar na hora sempre que possível, claro. É meu critério.

Abraços para todos e especialmente para você Karla!
Gostei do blog e de te ver mais uma vez vestindo a camisa da educação.