segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Decidi resistir

Parando para pensar no passado distante, que ideia foi essa de sonhar em ser pesquisadora no Brasil? Isso só pode ter saído de uma mente doentia ou ignorante demais para achar que isso tinha alguma chance de dar certo.

Nasci no Brasil, o maior dos países da América Latina, abençoado e amaldiçoado pelas riquezas que tem e que é capaz de produzir (desde que bem mandado pelo deus mercado, que diga-se de passagem tem interesse por ALGO, paga muito bem e no instante seguinte acha outro fornecedor mais em conta deixando quem dependia do ALGO na miséria). Por aqui não dá pra sonhar muito alto, pra ser pesquisadora, tem que ser professora universitária, de preferência em universidade pública. 

Por aqui temos uma elite tão mesquinha, mas tão mesquinha, que grande parte se formou (de graça) em universidades públicas e agora quer que elas sejam pagas. Sim, porque se o meu está garantido, que se dane quem vem atrás… E as cotas? "Cotas? Pra que cotas? Pro meu filho ainda por cima pagar pro coleguinha pobre? Coisa de comunista, cada um que se vire, trabalhando todo mundo consegue”.

Por aqui pesquisa básica não tem vez. Nem nas agências de fomento. Ou você sugere que a sua pesquisa vai trazer alguma ajuda para combater pragas ou doenças (estou falando de biologia, nem imagino como é nas outras áreas), ou as suas possibilidades são minúsculas de conseguir o que quer que seja.

Por aqui ser funcionário público é como ter uma doença contagiosa contraída num banheiro xexelento… Tem funcionário público que não assume que é funcionário público, vá entender. Funcionário público não tem o respeito de ninguém. Todo mundo pega a excessão como regra e acredita nas regras ditadas pela imprensa: funcionário público não trabalha, recebe mais do que merece: bando de vagabundos que não merecem o que ganham. Aliás, pra que funcionário público se tudo podia ser privado, né?

Por aqui ser professor também não é grande coisa. Aliás, ser professor funcionário público deve ser um xingamento dos piores, daqueles que eu nem tenho coragem de procurar um paralelo escatológico. Nem seus alunos, aqueles para quem você existe, te respeitam (tá bom, tem exceções, mas estou num mau dia, ok?). O poder público? Quer mais é que você desapareça, quanto menos professores, maior a ignorância e mais fácil de deitar e rolar nas nossas cabeças.

Por aqui teve um governo que investiu na ciência. Os laboratórios foram reformados (no meu tem até acessibilidade - se um cadeirante quiser trabalhar lá ele pode ir, tem até bancada feita especialmente e espaço para locomoção), teve dinheiro pra pesquisa. Até me senti no primeiro mundo. Quando a coisa começou a engrenar… Trocaram o governo. Qual foi uma das primeiras medidas? Fundir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (até parece coisa de país desenvolvido) com o de Comunicações, aquele que também cuida de televisão (aquela que faz propaganda pro governo pra ele fingir que não é golpista). Aí o laboratório está pronto, lindinho, equipado e sem grana pra funcionar… Pensei em fazer um museu, para levar os alunos (inclusive os cadeirantes) para visitar onde seria um laboratório de pesquisa em evolução. Eu diria, emocionada, que naquele pequeno laboratório eu formaria um montão de gente para tentar compreender como se dá a diversidade biológica no Brasil, porque nos trópicos tem mais espécies que nas áreas temperadas, o que faz com que duas espécies se diferenciem, qual o papel das bactérias nesse processo etc etc etc… 

Mas por aqui também tem gente guerreira, e eu conheço uma pá bem cheia delas

Então não adianta nada isso de querer acabar com tudo. Comigo não. Estou na resistência. Escolhi este caminho e agora não há quem me tire dele. Se eu não conseguir fazer pesquisa em genética com os meus próprios dados porque não tenho dinheiro para gerar, faço com os dados que estão disponíveis na internet. Não há nada de errado em responder novas perguntas juntando dados pré-obtidos e que responderam a outras questões. Se ainda assim ficar difícil, vou me dedicar aos meus alunos mais do que nunca, vão ter que me demitir para parar de me ouvir misturando biologia, genética e evolução com história, geografia e política. Vou sair da universidade também, vou invadir a comunidade da cidade, dar um jeito de entrar nas escolas. Vou divulgar ciência para as crianças. Não há melhor maneira de estimular o raciocínio que pensando em ciência.

Agora decidi que quero um Brasil melhor para a próxima geração. Eu cresci no país do futuro (também da pizza, no mal sentido; do trambique, do jeitinho), conheci e ouvi falar de muita gente que lutou para que a próxima geração (a minha) fosse feliz. Quando entrei na a vida adulta, tive a impressão de que eu começara a viver no país do presente, e que tudo estava na direção correta. O que era bom durou pouco. O país do futuro tem que continuar eternamente sendo o país do futuro e nos agarramos nessa esperança como o miserável que sabe que vai para o céu e que seus algozes vão para o inferno. O país do futuro, na prática, voltou para o mapa da fome e eu aqui reclamando que não tem dinheiro pra pesquisa… Devo ser uma idiota mesmo.


Não importa, uma vez idiota, sempre idiota. Vou continuar tentando fazer pesquisa, e pior, formando pesquisadores. Enquanto eu me aguentar financeiramente coloco meu dinheiro no laboratório sempre que for necessário. Quero gente que pensa do meu lado, quero gente que continue pensando depois que já não estiver do meu lado, e que estimule mais gente a pensar. Quero crianças pensantes na minha comunidade e nas comunidades em volta. Quero que a próxima geração tenha fome de saber e que saiba onde nasceu, pra romper com esta sina maldita. Quero que esta gente que vem depois saiba que estamos na América Latina e que sempre que tentamos levantar a cabeça vêm de fora e nos esmagam (com a ajuda de muita gente aqui de dentro, diga-se de passagem). Quero que as crianças conheçam a nossa história e vejam que sempre foi assim, mas que não precisa ser e que não queremos que continue sendo. 

3 comentários:

Tássia Pontes disse...

Sabe que esses dias, num café com 3 colegas do doutorado, eu me peguei pensando: Que coragem a nossa em começar um doutorado no contexto atual do pais (e sem perspectiva de melhora).
Não sei é coragem, tolice, romantismo querer trabalhar com o que gosta ou insanidade mesmo rs...
Sei que ta sendo bem desmotivador ver a pós graduação cheia de gente que está nela porque não conseguiu trabalho e aqui pelo menos tem/tinha bolsa.
É desmotivador ver o desmonte das universidades públicas seguindo num silencio...
Mas é, nos alunos tb seguimos resistindo.

Tássia Pontes disse...

Sabe que esses dias, num café com 3 colegas do doutorado eu me peguei pensando: Que coragem a nossa em começar um doutorado no contexto atual do pais (e sem perspectiva de melhora).
Não sei é coragem, tolice, romantismo querer trabalhar com o que gosta ou insanidade rs...
Sei que ta sendo bem desmotivador ver a pós graduação cheia de gente que está nela porque não conseguiu trabalho e aqui pelo menos tem/tinha bolsa. É desmotivador ver o desmonte das universidades públicas seguindo num silencio...
Mas é, nos alunos tb seguimos resistindo.

Karla Yotoko disse...

Tássia, terminei o doutorado junto com o governo FHC, 8 anos sem contratar ninguém nas federais, nenhuma perspectiva, mas a esperança (ou o retardo mental) estava lá, e teve que esperar um bocado para ter uma vaga. QUando as vagas apareceram, a demanda reprimida era enorme. Cheguei a fazer concurso com 40 candidatos pra uma vaga, fiquei até com pena da banca....