sexta-feira, 13 de agosto de 2010

fundamentalismos II

Inspirada num post do blog do Nelson, gostaria de falar de outro tipo de fundamentalismo que ando vendo por aí: o fundamentalismo genético.

Discuti isso ainda hoje com os meus alunos na sala de aula. Estamos só no começo da disciplina de genética básica, e estávamos falando sobre dominância e recessividade. Uma maneira prática de entender recessividade é a seguinte: um gene (ou alelo) é dito "recessivo" quando se expressa no fenótipo apenas quando está em dose dupla, ou seja, quando são necessárias duas cópias e não uma só para que o gene surta efeitos visíveis ou sensíveis (estamos falando do bicho-gente, que é diplóide).

Bom, eu comentei com eles que existe uma empresa que se chama "23 and me", que presta o serviço de sequenciar o seu genoma haplóide (por isso 23, eles sequenciam apenas um de cada um dos seus cromossomos). Não sei direito se eles sequenciam tudo, ou fazem uma busca por "genes suspeitos" que você porta. O que interessa é que, depois de um tempo, te mandam uma lista com todos os "problemas genéticos" que você poderá ter durante a sua vida...

Refletimos sobre a possibilidade de ter sequenciados alelos recessivos que não seriam expressos de qualquer maneira, já que estão em dose única e só se expressariam em dose dupla. Será que quando a empresa vende o serviço ela informa sobre esta possibilidade? Ou será que quando detecta uma coisa assim, sequencia os dois alelos para saber qual o genótipo completo referente à doença antes de alarmar o cliente?

Outra coisa a ser pensada nas próximas aulas de genética: e todos os outros genes que poderiam interferir na expressão da doença? Será que já se sabe quais e quantos são? E o ambiente em que a pessoa se desenvolve, não conta???


Esta informação, em todo caso, seria útil no caso de casamento com outra pessoa que também tivesse tido seu genoma haplóide sequenciado e tivesse detectado o mesmo problema no mesmo gene... Neste caso você teria 25% de chance de ter um filho com o genótipo recessivo, e, dependendo do ambiente, o menino poderia ter a doença genética determinada pelo gene em questão...

O post do Nelson fala do editorial da Nature desta semana, onde Francis Collins (o responsável pelo consórcio público de sequenciamento do Genoma Humano), um geneticista muito conhecido e respeitado, disse ter começado a se preocupar com sua saúde por causa de um diagnóstico genético (por sequenciamento) que indica a probabilidade de ter diabetes tipo 2.

A história toda me lembrou um artigo da revista Genética na Escola que trata de uma atividade didática, a paresentação do filme (que ainda não vi): Questão de Sensibilidade (The Twilight of the Golds). Após a apresentação do filme, os estudantes são convidados a discutir sobre o que foi visto, à luz do que estão aprendendo em genética. No contexto do filme (por favor, no contexto do filme!), já se sabe que existe um gene que determina o comportamento homossexual. O personagem principal é um geneticista, cuja mulher está grávida. A trama se desenvolve na pressão familiar para que o geneticista faça uma análise geral do genoma do filho, em busca de possíveis problemas, de modo que estes problemas possam ser evitados com um ambiente mais apropriado. Resulta que o menino só tem mesmo predisposição para o homossexualismo e a família em questão é composta de pessoas preconceituosas... Dá o que falar uma aula dessas, né?

Voltando para o fundamentalismo, acredito que o "fundamentalismo genético" possa ser ainda mais nocivo que o fundamentalismo religioso. Um outro filme, este bem mais famoso, o GATACA, ataca um pouco melhor este tema... É um tanto exagerado, mas mostra uma sociedade totalmente estratificada, de acordo com habilidades genéticas, geradas por engenharia genética. Os geneticamente "melhores" seriam os merecedores dos melhores empregos, com os melhores salários. O interessante disso tudo, é que esta história é muito parecida com o "admirável mundo novo" de Aldous Huxley, onde as condições ambientais, nos "aquários" onde os embriões humanos eram literalmente cultivados, definiam quem ocuparia qual casta na sociedade. Os embriões que recebiam nutrição adequada, sem álcool ou drogas no aquário durante o desenvolvimento, seriam os cidadãos alfa, os merecedores dos melhores empregos com os melhores salários...

Fechando tudo (menos!), o que eu tenho a dizer é que o fundamentalismo é nocivo, e que precisa ser detectado, para que possamos nos defender disso. Não gostaria de ouvir notícias no Jornal Nacional, de que as pessoas estão sendo discriminadas para exercer uma profissão ou outra por causa de diagnóstico genético... No fundo é tudo a mesma coisa. Para os religiosos, você não tem credibilidade porque não acredita em deus. Para os fundamentalistas genéticos, você não tem credibilidade porque foi sequenciado, no seu genoma, o gene para uma doença qualquer, que poderia limitá-lo em algum momento de sua vida...

3 comentários:

Nelson disse...

Comentário meio nada a ver, mas que eu acho que faz sentido :-P

Olha só. Será que não nos atrapalha um pouco (quando pensamos na lógica dessas discriminações, e tal) o fato de que aceitamos normalmente discriminações etárias e de gênero (por exemplo) em planos de saúde e seguro de veículo? Porque vai dizer, por um lado, é a MESMÍSSIMA coisa; tão utilizando um conhecimento de algum embasamento sério, mas incompleto, e julgando o indivíduo Nelson, ou Karla, ou Zezinho, por uma média. É justo? Pior que isso... o pessoal que alerta contra possíveis abusos em relação á discriminação genética sempre pondera - com muita razão, que o indivíduo não pode ser responsabilizado porque carrega determinado gene, tipo, ele não tem "culpa" sobre isso. Mas no caso de planos de saúde temos "culpa" por envelhecer??

Por isso que eu só acredito piamente em duas coisas 1) o mundo é complexo; e 2)sempre pode piorar.

PS: Esse outro filme eu não conheço, mas Gattaca é bem legal ;-). Fica a dica!

Karla Yotoko disse...

Acho que nestes casos eles te julgam por uma média, que se não é a melhor coisa do mundo, ainda faz algum sentido em uma sociedade blablabla...

Quanto aos planos de saúde, não sei o que pensar... Acho que a política mais justa seria uma que desse descontos progressivos com os anos de fidelidade a um determinado plano. Assim, quando você ficar velho, se interna às custas dos "novatos" no plano, gente nova ou velha.

Não temos culpa por envelhecer, mas sabemos que velhos tendem a ficar doentes com mais frequência que os novos...

É claro que isso é mais complexo do que o que nós dissemos, na verdade não sei direito o que pensar, nunca tinha parado para questionar isso...

larchiviste disse...

Karla, querida, AMEI o seu blog!!! Parabéns!!

Beijos,

João Henrique