terça-feira, 13 de julho de 2010

o imbecil, o cretino e o estúpido...

Parece ofensivo, mas achei muito produtivo...

Acabei de ler um livro que por puro acaso caiu nas minhas mãos: "Não Contem com o Fim do Livro", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Como ambos dispensam apresentações, vamos à parte que me chamou a atenção. Eles escreveram uma série de conversas onde fazem praticamente uma declaração de amor aos livros. São dois bibliófilos, que gastam muito dinheiro para conseguir raridades e falam de algumas delas ao longo do livro.

Em vários pontos do livro, Umberto Eco declara sua paixão pela burrice humana, e declara que se não fosse por ela, nossa história poderia ser muito diferente. Ele declarou ainda que muitos dos documentos (dentre os quais os livros) que chegaram ao nosso conhecimento, foram escritos por imbecis, cretinos e estúpidos. Esta mesma estupidez acabou filtrando o que foi escrito ao longo do tempo, através de atitudes cretinas ou mesmo de atos de vandalismo ou atos políticos de queima de livros (atos de estupidez, ou burrice?)

No trecho que vou transcrever aqui, Eco faz uma distinção entre o imbecil, o cretino e o estúpido...

"O cretino não nos interessa. É aquele que leva a colher à testa em vez de mirar na boca, é quem não compreende o que você lhe diz. Caso encerrado. A imbecilidade, por sua vez, é uma qualidade social, e você pode inclusive chamá-la de outra forma, uma vez que, para alguns "estúpido" e "imbecil" são a mesma coisa. O imbecil é aquele que vai dizer o que não deveria dizer num dado momento. É autor de gafes involuntárias. O estúpido é diferente, seu defeito não é social, mas lógico. À primeira vista, temos a impressão de que raciocina de forma correta.É difícil detectar à primeira vista o que não está batendo direito. Eis por que ele é perigoso."

Carrière completa:

"Pra mim, o estúpido não se contenta em enganar. Ele afirma seu erro em alto e bom som, proclama-o, quer que todos o ouçam. É inclusive surpreendente ver o quanto a estupidez é tonitruante: "Agora sabemos de fonte segura que..." e segue-se uma besteirada."..."Flaubert disse que a burrice é querer concluir. O imbecil pode chegar por si mesmo a soluções peremptórias, definitivas. Ele quer encerrar para sempre determinada questão. Mas essa burrice, frequentemente recebida como verdade por determinada sociedade, é para nós, como o recuo da história, extremamente instrutiva. A história da beleza e da inteligência à qual limitamos nosso ensino, ou melhor, à qual outros limitaram nosso ensino, não passa de uma parte ínfima da atividade humana..."


Depois de muita divagação sobre estúpidos e imbecis, Eco divaga sobre a burrice, que não seria "idêntica à estupidez. Seria antes uma maneira de administrar a estupidez",... "com orgulho e assiduidade".

É muito interessante ler como estes homens das letras tratam destes assuntos de forma despudorada e sem medo de ser politicamente incorretos.Fiquei pensando nas vezes em que me lembro (o cérebro é bastante seletivo neste quesito) de ter atitudes imbecis (nas milhares de manezadas que fiz na vida), e nas vezes que fui de fato estúpida. Esta definição de estupidez pode ser de grande ajuda para evitar novas atitudes estúpidas. A divagação sobre a burrice dói mais ainda, quantos atos estúpidos não foram bem administrados pela minha burrice?

A partir da definição comecei a pensar em todas as pessoas estúpidas que conheço (de fato não são poucas) e a confabular se seus atos estúpidos são pura ignorância ou se esta gente pretende manipular os outros com sua estupidez. É um caso a ser pensado e refletido...

Há quem pense que as definições são inúteis. Eu discordo. Nossa necessidade de nomear todas as coisas é parte da nossa essência. Conhecer determinadas definições pode encurtar minha tristeza em relação às outras pessoas. A definição da estupidez, por exemplo, é uma excelente maneira de me defender contra os estúpidos de plantão, que insistem em conviver comigo. É isso, criei uma nova categoria de pessoas. Antes eu tinha amigos, conhecidos, desconhecidos e inimigos. A partir de agora tenho amigos, conhecidos, desconhecidos, pessoas que considero estúpidas e inimigos. Isso é quase auto-ajuda, sobraram pouquíssimos (se é que soubrou algum) inimigos com quem eu tenha que me preocupar! (Será que isso foi uma estupidez???)

6 comentários:

Dr. OvO disse...

http://ateus.net/artigos/ceticismo/ensinar-a-pensar/

Concordo com Kant, e temo sobremodo a classificação em rótulos. Aliás, não acredito que existe esa coisa chamada "inteligência". Nâo é porque se inventou um rótulo que a coisa pasa a existir!
No link acima há um texto, atribuida a Emmanuel Kant (não chequei), o autor do "Imperativo Categórico": faça o bem, independentemente dos resultados (como no Bhagavad Ghita, talvez no Novo testamento), em contarposição ao "Imperativo Hipotético": "se eu fizer o bem, vou me dar bem".

É difícil de aplicar, mas acho que é por aí. E testemunho resultados positivos (será que é o imperativo hipotético atacando sorrateiramente?) na prática docente. Mesmo que a médio prazo (não vivi o suficiente para avaliar o "longo prazo") os alunos que aprendem a pensar resultam em colaboradores, e, melhor que isto, levam ao aprendizado do professor!

Karla Yotoko disse...

Eu não sei se entendi direito este comentário, mas gostaria de esclarecer que rotular (ou dar nomes às coisas) é só uma maneira de conseguir começar a pensar nelas. Há quem diga que nós pensamos porque falamos, e não vice-versa.

A história de nomear as coisas permite que possamos pensar nelas com mais clareza, dispensando uma definição detalhada em cada raciocínio.

Não sei se é verdade, mas meu cérebro deve funcionar assim...

Anônimo disse...

Interessante...
Correndo o risco de ser estúpido, (risos), queria deixar um comentário sobre o fato do conhecimento humano sobre a natureza ("natureza-natureza", natureza humana...), o seu entender os múltiplos universos que o cercam (o homem), estar inacabado,imcompleto, e que talvez sempre esteja.
Sei lá, é complexo de mais unificar todas as "verdades", de todas as áreas, e daí falar algo como lei geral.
Tipo assim, podemos dar uma colher de chá e ser compreensivos perante aos muitos estúpidos da História. Talvez também sejamos assim e não saibamos. Prefiro pensar que esse 'falar sobre o que não se sabe a fundo', mas sobre o que se acredita profundamente, é apenas uma das etapas da maturidade do pensamento humano tentando entender o mundo, tentando criar teorias explicadoras da vida, tentando responder essa curiosidade nata de cada um de nós e que nos impulsiona dia após dia.

Devo ter dito uma besteirada sem fim, mas preferi correr o risco. Fui seu aluno e tenho consciência que falei uma besteirada nas aulas de genética a alguns períodos atrás. E, do meu limitado ponto de vista, acredito tb que vc falou algumas, quando opinou em campos que aparentemente não pesquisa a fundo(digo isso meramente por primeira-impressão), como religião p. ex.

Mas foi ótimo ser seu aluno, ter tido semanalmente o covívio com alguém que se mostra realmente interessada em ciência, que fala sobre isso com prazer.

Karla Yotoko disse...

Eu acho que a gente corre o risco de ser estúpido todos os dias... Fazer o quê? O negócio é tentar detectar a própria estupidez e não fazer de novo.

Quanto a opinar, procuro opinar cada vez menos, mas a minha natureza (humana, talvez?) não me permite calar sempre. É um defeito, eu reconheço...

Sobre religião, tenho aprendido a deixar mesmo de opinar. O mundo é um lugar muito perigoso para quem tem opiniões diferentes das dos outros, se você for assim, é melhor calar. Tenho tentado me proteger o máximo possível de certo tipo de gente que acredita ser dona da verdade. Não estou falando por você, até achei o teu comentário bem moderado.

Só gostaria de sugerir que você assinasse seus comentários. É um tanto desconfortável debater o que quer que seja com um interlocutor anônimo...

Liliana Maria Rosa disse...

Juntando esta postagem com aquela de julho, onde falas dos alunos com cabeça multi-tarefas, poderíamos dizer que são estes, como os descreves ali, um bom exemplo de imbecis. E aqueles que os percebem e classificam de cabeças multi-tarefas, seriam então os exemplos típicos de estúpidos, que apresentam exatamente um defeito de lógica, parecem, à primeira vista, até estarem raciocinando de forma correta e, eu acrescentaria, tirando corretas conclusões do que observam a seu redor e, perigosamente, induzindo à falsidade.

Karla Yotoko disse...

Muito bom, Liliana! Talvez seja isso mesmo, não tinha pensado sob este ponto de vista...