sábado, 31 de outubro de 2015

Vida de Estudante

19/10/2015

Estou aqui, esperando os alunos terminarem a minha prova... Nem tava tão difícil assim, mas quatro já desistiram só de olhar. Mudei minha política de prova substitutiva esse ano. Antes era só querer refazer uma prova e o estudante tinha direito à prova substitutiva. É isso mesmo, aqui onde eu trabalho, se você perder ou for mal numa prova, tem direito a fazer de novo, no fim do semestre. Não é uma regra, mas uma tradição que procuro preservar, para o bem dos alunos...  Percebi que não era uma boa política, dava margem a não estudar agora e deixar pra depois.

Esse semestre, eu disse que só tem direito à substitutiva quem faltasse à prova ou desistisse nos 10 primeiros minutos. Fracassei de novo, teve uma pá de gente que não veio e teve gente que olhou pra prova e desistiu... O que será que esotu fazendo errado?

Eu tento. Sei que genética não é a menina dos olhos da imensa maioria dos meus alunos (não era a minha também quando estudante). Justamente por isso, tento fazer com que as aulas sejam mais agradáveis, mas acho que venho fracassando miseravelmente a cada aula. Eu não sei se é o horário (as aulas são à noite), ou se sou eu que não consigo quebrar a barreira de linguagem com meus alunos. Às vezes acho que falamos idiomas diferentes. Só sei que sempre saio com a sensação horrível de que horas de estudo e de preparação de aula não servem pra muita coisa. Na verdade acabo aprendendo muito, mas infelizmente praticamente sozinha, não consigo empolgar os estudantes do jeito que eu me empolgo com as novidades.

Essa turma do noturno era para ser da licenciatura em biologia. Só por isso peguei essa turma pra mim. Não gosto de dar aula à noite, acho que não rendo muito, mas, por querer fazer algo pela educação, resolvi encarar o desafio, todo ano. O problema é que das quarenta vagas disponíveis apenas cinco foram preenchidas por alunos de licenciatura. O resto foi ocupado por estudantes das mais diversas áreas. Não tenho nada contra eles, mas, onde diabos estão os futuros professores?

Se eles estão preferindo assistir às aulas do período diurno, o que estou fazendo aqui a essa hora? Porque estou me submetendo, todos os semestres, a dar aulas à noite? E esse pessoal que está fazendo essa bendita prova, porque vieram para essa turma? Estudar de dia não é mais confortável e não rende mais?

Eu estou fazendo esse drama todo, mas eu entendo que os meus alunos estão de fato na melhor idade de todas (melhor mesmo, em todos os sentidos, não só pra ser politicamente correto com quem já passou por boa parte da vida). É a melhor idade pra namorar, para fazer amigos (meus melhores amigos são dessa época, bons tempos...), pra beber (você não está morto no dia seguinte), pra virar a noite, pra fazer besteira... É a melhor idade de todas pra viver cada segundo, mesmo sem ter a percepção macabra de que a vida é curta.

No entanto, se eles entraram na universidade, eu assumo que estavam atrás de algum benefício. Essa idade também é a melhor de todas para estudar, seu cérebro está novo em folha e você consegue aprender virtualmente qualquer coisa.... se quiser...

Será essa a questão? A vida fora da universidade é tão interessante que torna as salas de aula enfadonhas e sem graça? O que a rua tem a oferecer é tão mais intenso e empolgante que não dá pra aturar horas de aula? Será que o problema é o modelo de aula? Teríamos que ter professores robôs interativos? Isso seria mais efetivo? Certamente seria mais barato, a não ser que os estudantes resolvessem destruir um robô de vez em quando, só para sair da rotina...

E se eles estudassem em casa, com aulas gravadas que pudessem ser acessadas a qualquer instante? Eu mesma faço uns cursos assim de vez em quando. Recomendo, vale a pena poder estudar no seu ritmo, quando você tiver tempo. É isso que precisamos fazer para adequar a universidade a essa nova geração que nasceu sabendo tudo o que precisa e que portanto não sente necessidade de aprender mais nada?

Eu não sei, sinceramente sou cética com relação a isso, mas teríamos que testar para saber se realmente não dá certo. Talvez fosse o caso de adiar o início da faculdade, talvez fosse o caso de colocar uma pergunta na prova do ENEM: de zero a dez, qual a intensidade da sua vontade de entrar na universidade, seja sincero... Será que teríamos uma média de 5 mais ou menos 2??? Ou a média seria alta no papel e baixa na real???

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31/10/2015


Alguns dias se passaram desde o desabafo durante a prova. Ainda não tive coragem de publicar o post, talvez por achar que merecesse edição... Minha sensação de inutilidade na vida só aumentou. No fim da semana passada dei uma entrevista para uma estudante da licenciatura. Ela me perguntou sobre minhas iniciativas para estimular os alunos, para melhorar as minhas aulas. Falei de tudo, contei das minhas experiências frustradas, contei da minha decepção com a falta de estudantes de licenciatura nas minhas turmas... Saí com a sensação de que errei feio na escolha da profissão... Acho que é o fim do ano. Olhando para os meus posts nesse blog (que são cada vez mais raros), vejo um padrão de aumento do pessimismo com o fim do ano...

A cidade em que moro está com problemas de abastecimento de água. A universidade se expandiu, mas não houve medidas para aumentar a captação de água na cidade. Além disso, as chuvas estão escassas ultimamente, é o segundo ano de estiagem feia e mais ou menos o quinto ano de redução da quantidade de chuvas... Esses fatores somados culminaram numa crise hídrica que tem que ser enfrentada por todos os cidadãos. Tudo isso pra quê? Fica a questão se a expansão da universidade vai ter efeitos positivos suficientes para abrandar esse impacto. Do meu ponto de vista? Uma sensação de que muita gente entrou na universidade sem saber direito porque nem pra quê...

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Eu queria saber como convencer os estudantes de que a vida de estudante é boa, e que estudar deveria fazer parte dela, principalmente pra quem optou por entrar na universidade. Não consigo aceitar que eu tenha alunos que frequentam as aulas, olham para a prova e simplesmente decidam fazer depois... Será que eles acham que vai ser mais fácil daqui a mais de um mês? Talvez. Talvez alguns deles tenham tido problemas reais, com os quais não conseguiram lidar e que os tenha obrigado a desistir da prova. Quando estou no auge do meu pessimismo, a impressão que tenho é que nada importa: a vaga na universidade, a oportunidade de estudar, de ir mais longe de conhecer mais... Se nada disso tem a menor importância, o que se dirá de minhas aulas?

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Melhor parar por aqui. Quanto mais penso no assunto mais tenho vontade de desistir. Por hoje é isso, devem ser as bruxas soltas por aí... Chega!


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ciência no Brasil e a fábrica de doidos...

Isso é um desabafo! Trabalho o filogenias, meus dados são sequências de DNA, que consigo em bancos públicos de dados internacionais (a parte fácil) ou tenho que produzir no laboratório (a parte trabalhosa, cara e demorada).

Até hoje, o serviço consiste basicamente em coletar os espécimes no campo, tarefa que requer autorização do ICMBio e alguns relatórios. Uma vez no laboratório, o organismo deve ter o DNA extraído e é neessário fazer múltiplas cópias do locus de interesse, em geral um gene mitocondrial ou uma sequência não codificadora. Isso seria simples e rápido, não fosse o fato de que é necessário desenhar primers (sondas que permitem estudar apenas a região desejada do DNA).  Isso também seria simples se eles sempre funcionassem. O problema é que nem sempre funcionam, e, como trabalho no Brasil e os primers não são produzidos por aqui, o tempo de espera pode variar de 2 a infinitos meses, caso a alfândega resolva que não posso mais importar esse tipo de coisa. Já me aconteceu de esperar cinco meses por um par de primers, inadmissível (sim, eles mudam de ideia de tempos em tempos, ainda não consegui entender exatamente como funciona). Comparando com colegas que estão nos EUA, a coisa fica mais ridícula. Eles conseguem desenhar um par de primers e testá-lo no mesmo DIA!!!! Assim, brigam no máximo uma semana com uma região difícil de amplificar... Sem comentários!

Outra coisa que preciso comentar é que os equipamentos e reagentes necessários para a extração do DNA e fazer as tais múltiplas cópias também são importados. Com isso, se ganhei 20.000 do governo federal ou estadual para pesquisa, na verdade ganhei só a metade disso, pois a outra é devolvida ao governo em forma de impostos. Tudo isso a despeito de ser funcionária pública de uma instituição federal (sou professora universitária).

Saindo de meu pequeno parêntesis. Uma vez conseguidas as múltiplas cópias, é preciso sequenciar o tal fragmento de DNA. Isso tem vários usos, que vão da identificação molecular de espécies ao estudo da variabilidade genética dentro e entre populações. Para sequenciar posso utilizar laboratórios que fazem esse tipo de serviço, uma vez que a demanda de meu laboratório é pequena e eu não tenho recursos para manter um sequenciador. No Brasil, alguns laboratórios oferecem o serviço, mas o preço é muito alto e sempre que algo sai errado tenho que arcar com todo o prejuízo. O problema é que a demanda é muito maior que a oferta, o que deixa o serviço muito lento. Há alguns anos tenho utilizado os serviços de um laboratório coreano: a qualidade é excelente, além de eles refazerem sem custos qualquer sequência que tenha ficado ruim, sem discussão.

O problema aqui é a burocracia de novo. Sempre que um aluno meu precisa mandar amostras para serem sequenciadas, precisamos preencher um cadastro, explicar porque cada amostra tem que ser enviada, anexar o projeto e esperar pelo carimbo e assinatura de um outro funcionário que tem como objetivo garantir que eu não estou fazendo nada de errado. Eu não sei qual a formação dele, mas nunca li nenhum artigo dele na área, motivo pelo qual suponho que ele não seja doutor em genética, biologia molecular ou evolução... Para pagar pelo serviço, conto com a fundação da universidade, que a cada pagamento pede que eu justifique (reiteradamente) porque utilizei essa empresa e não qualquer outra. Você pode argumentar: "é só copiar e colar professora", mas se é só isso mesmo, porque tenho que fazer???

Apesar de reclamar (e achar um absurdo) tenho conseguido viver com esse nível de burocracia. Estou de férias, e o grande objetivo era descansar um pouco da correria (além de burocrata e aspirante a pesquisadora, sou professora). O problema é que não consigo colocar uma mensagem de "estou de férias e não me procure essa semana" e acabo lendo os e-mails que me mandam. Pois é. Recebi um e-mail de um colega pedindo para os destinatários colaborarem com um projeto de lei que vai ser votado segunda-feira (tipo, daqui a três dias) na câmara dos deputados, o PL7735/2014.

Estava chovendo e eu estou na praia com internet... Sem nada pra fazer, resolvi ler o PL, que "dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético; sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado; sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade; e dá outras providências". Já achei bem estranho um único PL dispor sobre tanta coisa... A expressão Patrimônio Genético me chamou a atenção, então resolvi ler o tal PL...

No artigo 2o o PL conceitua Patrimônio Genético como qualquer informação de origem genética... Opa, isso me diz respeito, trabalho com sequências de DNA... Resta agora resta saber o que fico proibida de fazer por essa nova lei.

Continuei lendo, já bastante preocupada quando cheguei no capítulo IV, cujo parágrafo único declara ser "vedado o acesso ao patrimônio genético ou conhecimento tradicional associado por pessoa natural estrangeira." Oi? Pessoa natural estrangeira? Qualquer um que não tenha nascido no Brasil??? Não sei se quem fez a lei sabe, mas existe um acordo entre todas as revistas científicas do mundo de obrigatoriedade da disponibilizar toda e qualquer sequência utilizada para obter os resultados de um artigo científico em um banco PÚBLICO de dados. Isso é muito interessante, como eu disse no começo desse post enorme, uma das minhas fontes é um desses bancos, onde sequências dos mais diversos organismos, coletados por todo o planeta estão disponíveis... Se a lei for aprovada como está, isso torna ilegais todos os projetos em andamento no meu laboratório, uma vez que o Patrimônio Genético a ser produzido pelos meus alunos deve ser publicado e acessado por bilhões de pessoas, a maioria "natural estrangeira"...

Bom, consideremos que o artigo 2o seja reformulado e o que eu faço não se torne ilegal. O Art. 3o dispõe que: "O acesso ao patrimônio genético existente no País ou ao conhecimento tradicional associado para fins de pesquisa ou desenvolvimento tecnológico e a exploração econômica de produto ou processo oriundo desse acesso somente serão realizados mediante cadastro, autorização ou notificação, e serão submetidos a fiscalização, restrições e repartição de benefícios nos termos e nas condições estabelecidos nesta Lei e no seu regulamento."

Não consegui entender... Para trabalhar, a partir de agora, vou precisar preencher cadastro, pedir autorização e/ou notificar a algum órgão? Isso quando? Antes de mandar o projeto, depois que ele for aprovado, antes de coletar ou antes de publicar? Fiquei muito confusa... Um trabalho científico vai precisar do aval de um burocrata? Esse burocrata tem doutorado na minha área? Como exatamente vai julgar o trabalho? Estou mais acostumada a ter projetos e trabalhos julgados por meus pares, que não têm recusado recursos ou impedido a publicação.


Ainda não acabou... Se você chegou até aqui, tem mai um item a ser considerado:

Art. 12. Deverão ser cadastradas as seguintes atividades:
I - acesso ao patrimônio genético ou conhecimento tradicional associado dentro do País realizado por pessoa natural ou jurídica nacional, pública ou privada;
II - acesso ao patrimônio genético ou conhecimento tradicional associado por pessoa jurídica sediada no exterior associada a instituição nacional;
III - acesso ao patrimônio genético ou conhecimento tradicional associado realizado no exterior por pessoa natural ou jurídica nacional, pública ou privada;
IV - remessa de amostra de patrimônio genético para o exterior com a finalidade de acesso, nas hipóteses dos incisos II e III do caput; e
V - envio de amostra que contenha patrimônio genético por pessoa jurídica nacional, pública ou privada, para prestação de serviços no exterior como parte de pesquisa ou desenvolvimento tecnológico.


Repare que o item V do Art. 12 acrescenta mais um item à burocracia insana do meu trabalho...

Bom, isso tudo foi para pedir o apoio de colegas e pessoas que trabalham com esse tipo de material. Vamos sugerir que a lei não trate de tanta coisas de uma só vez. Eu consigo entender porque proteger o conhecimento tradicional, que deve ser preservado a todo custo para que empresas multinacionais não ganhem quantidades indecente de dinheiro às "nossas" custas. Isso é um ponto. Outra coisa, muito diferente, é travar ainda mais a atividade dos cientistas desse país, que já sofrem tanto com burocracias dos mais diversos tipos.

Se a intenção é proteger nosso patrimônio genético de cientistas estrangeiros que aparecem por aqui, coletam o que bem querem e utilizam os organismos em seus trabalho, eu acho que a política tinha que ser no sentido de nos tornar mais eficientes. Sim, temos cérebros suficientes no Brasil para que possamos competir em pé de igualdade com os estrangeiros, ainda mais em se tratando de organismos brasileiros que estão no quintal de casa. Como eu disse no começo, nossa pesquisa é cara (carga de impostos), lenta e emperrada, por causa da burocracia. Se o dinheiro pudesse ser melhor empregado e o tempo necessário para conseguir equipamentos, insumos e produzir dados fosse mais curto, produziríamos mais e com mais qualidade.

Se você conhece alguém na minha situação, por favor, repasse esse post. Vamos todos entrar no site da câmara e pedir que essa votação seja adiada e que esses e outros tópicos possam ser discutidos pela sociedade e pela academia. Obrigada pela paciência!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Entre relíquias sagradas e ciência... René Descartes

Passei só pra recomendar o último livro que li: "Os Ossos de Descartes", de Russel Shorto. Nunca li nada desse autor, nem tinha ouvido falar. Foi tudo um "acidente" feliz. Fui à livraria, procurar algum livro de divulgação científica na minha área... Não achei nada e olhei pro lado, na parte de filosofia da ciência (que vai ser meu novo nicho de busca de livros) e or acaso o título me chamou a atenção...

Sem esperar muito do livro, me surpreendi... O relato começa com a morte de Descartes, alguém que achava que iria driblar a morte por uns 500 anos (viveu só 52, vencido pelo frio da Suécia). Apesar de ser o pai do materialismo e ter criado as bases do Iluminismo (o movimento que, muito tempo depois de sua morte, iniciou o racionalismo na humanidade), Descartes  teve nada menos que três funerais (católicos) em épocas e contextos diferentes. Teve parte de seu esqueleto roubado (o crânio!), mantido como relíquia, vendido em um leilão barato e venerado, por cientistas e religiosos.

O livro conta a história dos ossos de Descartes, dos grandes cientistas que tiveram seu suposto crânio em mãos e das "certezas científicas" que basearam a veracidade do crânio enquanto pertencente ao grande mestre. É muito interessante ver que, como quase sempre, os pesquisadores partem de uma certeza (de que o crânio era dele e não de outro europeu qualquer) e como isso enviesa o resultado final. Ao mesmo tempo que conta uma história interessante, o autor faz pensar sobre o método científico, as crenças dos pesquisadores, o funcionamento do cérebro e em como tudo isso é indissociável.




domingo, 22 de junho de 2014

Ensinar, aprender, me jogar pela janela...

Não sei quem disse que ninguém ensina nada pra ninguém. Eventualmente alguém aprende, mas só aprende quem quer... Nessas, ser professor pode ser um pouco ingrato: você prepara a aula, pensa no melhor jeito de abordar um determinado assunto, se coloca no lugar de quem nunca ouviu falar daquele tema e chega na sala de aula crente que vai arrasar e sai arrasada porque ninguém deu muita bola, parece que você nem passou por lá.

No começo do semestre sempre acredito que vai ser melhor que o anterior, que os alunos são mais interessados e que dessa vez vai dar tudo certo, vou conseguir atingir a pelo menos 70 % da turma... Depois de corrigir a primeira prova, um choque de realidade:  a maioria não entendeu, não estudou ou não estava nem aí... (não entendo porque me choco, até as cobaias do Pavlov aprenderam a associar campainhas a choques, porque ainda não associei turmas de genética ou evolução a choques?). Me lembro de odiar (do verbo não querer nem saber de) várias das disciplinas que fiz no curso de biologia, mas de estudar só pra me livrar delas (não queria nem conceber a hipótese de reprovar numa disciplina odiosa, imagine ter que fazer tudo de novo!). Lembro também de não entender para quê poderia servir estudar um ou outro assunto (na verdade um monte deles), mas de ser apaixonada por certos assuntos, a ponto de ler, estudar, tentar ir a congressos e encher o saco de alguns professores.

Pra que serve um professor? Começo a me perguntar no meio do semestre. A pergunta fica me azucrinando as ideias até o fim do ano, quando chego à conclusão de que um professor não serve pra nada. Veja bem, tudo o que estou habilitada a ensinar está nos livros ou nos artigos. Então tenho duas respostas:

  1. Um professor não serve pra nada porque quem realmente quer saber, estuda e aprende, não precisa do professor;
  2. Um professor não serve pra nada porque quem não quer aprender, não vai aprender de jeito nenhum, por mais esforço que o professor faça.
Será que a profissão de professor está em extinção? Pode ser que essa geração não precise mesmo de professores. A impressão que tenho é que todos se sentem geniais e que nasceram sabendo tudo o que precisam para exercer suas profissões. Só não vejo a prática disso, não vejo autodidatas que estão na universidade só pra ter o diploma, mas que se viram sozinhos e que conseguem bons resultados nas provas só porque sabem que é uma etapa importante a ser cumprida. Isso era o mínimo que eu esperava de um gênio que foi obrigado a entrar na universidade para poder ter o direito legal de exercer a profissão de biólogo. Tive muitos colegas assim: passavam na maioria das disciplinas aos trancos e barrancos porque as odiavam mas sabiam que precisavam delas para obter o diploma. Hoje são excelentes pesquisadores. A diferença que vejo entre meus colegas e meus alunos é a dedicação ao que realmente gostam. Se são excelentes pesquisadores é porque gostavam sim da biologia, não de toda a biologia, mas de uma parte dela, uma parte importante, sem a qual não faria sentido cursar biologia. Simples assim!

Sim, estou em crise. Vejo esforços por parte do governo em fazer mais gente entrar na universidade, mas infelizmente vejo pouca gente se perguntando se realmente quer entrar na universidade. Já conversei com alunos que me disseram que entraram na biologia porque tinham nota para entrar, mas não era bem isso que queriam ou nem tinham decidido nada ainda (e não decidiram até agora). Sim, sou a favor dessa política, pra mim, quanto mais gente entrar na universidade, melhor (melhor pro país, melhor para as pessoas, melhor!) Eu só gostaria de sugerir que os candidatos assinassem um papel dizendo que realmente querem cursar o que escolheram __parece cretino, se eles escolheram é porque querem, certo? Tenho dúvidas...

Estou carente de gente apaixonada pela biologia, gente que topa fazer um curso com 70% de matérias chatas só pra poder ser biólogo e se dedicar ao que quer fazer. Gente que se comova com a beleza e com as incertezas. Estou carente de gente dedicada, que tem brilho nos olhos e sede de saber, só por saber mesmo, por satisfação intelectual. Bobagens? Talvez!

Sim, tenho alunos bons, de quem sempre me lembro em momentos de crise, mas que agora estão atrás da cortina de tristeza que eu fechei por um tempo. Fora das crises me convenço de que é só um problema de idade (a minha, que não para de avançar e a deles, que é sempre a mesma) e de maturidade (minha, que não aprendo a lidar com frustrações, e deles, que ainda não perceberam que estão perdendo tempo). Dentro das crises me convenço de que sou eu que estou perdendo tempo, minha vida está passando e eu posando de figurante na profissão que escolhi. Não seria o caso de mudar de profissão? 

A crise passa, eu sei. Todo ano, mais ou menos entre a segunda e a terceira prova, me torno uma pessoa pessimista, que quer se jogar pela janela. O melhor de tudo é que vem a terceira prova, depois a prova final e o jogo recomeça. O novo semestre chega e eu me convenço que essa turma vai ser melhor que as outras, e que finalmente vou fazer diferença na formação de alguém. É mesmo verdade que só aprende quem quer aprender e eu me recuso a aprender que minha profissão está em extinção e que ninguém mais quer aprender nada comigo... O dia que aprender, juro, saio pela porta e vou arrumar outra coisa pra fazer.