Tudo bem, o post sobre a inveja não rendeu nem um comentário, nem pra bem nem pra mal, o que mexeu um pouco com a minha vaidade...
Por falar nisso, outro pecado capital. Olha o que a Wikipedia define como vaidade:
"Vaidade é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Uma pessoa vaidosa cria uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o objetivo de ser admirada. Mostra com extravagância seus pontos positivos e esconde seus pontos negativos. A vaidade é mais utilizada hoje para estética, visual e aparência da própria pessoa. A imagem de uma pessoa vaidosa estará geralmente em frente a um espelho, a exemplo de Narciso.
Uma pessoa vaidosa pode ser gananciosa, por querer obter algo valioso, mas é só para causar inveja nos outros.(que frase estranha!)
O que pelas lentes de alguns é asseio, ou glamour, ou fantasia, ou amor ao belo, ou elevação da auto-estima, pelas lentes de outros pode ser (parecer) vaidade. Nos Ensaios de Montaigne há um capítulo sobre a Vaidade. A Vaidade (também chamada de Orgulho ou Soberba) é considerada o mais grave dos pecados capitais."
Se for isso mesmo, a vaidade nada mais é que outro lado da moeda da inveja. Voltando a nosso ambiente ancestral, se por um lado nos esforçamos para eliminar os indivíduos belos e brilhantes, também nos esforçamos por parecer belos e brilhantes... E tudo isso para que? Para aumentar o sucesso reprodutivo.
Parece que a nossa personalidade, bem como nossos instintos mais primitivos, (que a Igreja considera como pecados sujeitos à condenação - os capitais) foram moldados por nossa necessidade de reprodução (quem não a tinha não deixou descendentes, por isso está fora da equação). Então temos que pensar em indivíduos na corda bamba: por um lado parecendo belos e brilhantes aos olhos dos demais e por outro lado tentando não ser assassinados quando convenciam os demais disso.
Não seria uma estratégia então não ser vaidoso para não chamar a atenção dos inimigos? Talvez houvesse quem, mesmo se esforçando, não parecesse nem belo nem brilhante. Talvez também houvesse quem fosse generoso a ponto de conviver bem com a beleza e o brilho alheios.
De qualquer forma, a vaidade, que é o pior pecado capital segundo a Igreja, hoje em dia é vista com bons olhos pela sociedade. É possível que sempre tenha sido bem vista, afinal, somos seres capazes de dissimulação, e a partir disso, é, e sempre foi, muito mais importante para os outros como você se mostra do que como você de fato é. Aliás, qual é mesmo a diferença?
Isso talvez justifique a corrida enlouquecida às clínicas de estética para melhorar não-sei-o-quê não-sei-onde, colocando silicone, esticando, puxando, rasgando, cortando, aspirando... O interessante é que se ganha muito dinheiro com a vaidade alheia. Tá aí, o pessoal que cuida, gosta e ganha muito dinheiro já sacou faz tempo como evoluímos e quais são nossas necessidades psicológicas básicas: uma delas é certamente garantir a próxima geração, o que nos leva a querer atrair parceiros e consequentemente nos leva às clínicas de beleza. Quer ganhar dinheiro? Mire em nossas características mais arraigadas, em nossas necessidades mais profundas, em nossos desejos mais primitivos, não tem jeito de errar.
Mais que um blog de educação, que pretende discutir a relação professor-aluno, este blog também tem como objetivo (me) fazer refletir sobre a vida em sociedade e o papel da educação no direcionamento de novos cidadãos... Será que isso é realmente possível?
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
7 pecados - a inveja
Ontem assisti a uma palestra do Zuenir Ventura, aqui mesmo, no auditório da UFV. Muito boa a palestra, além de muito istrutiva, muito divertida... Ao ser perguntado sobre como fora escrever Inveja-Mal Secreto, o autor afirmou que foi muito difícil escrever sobre isso, já que ele não conseguiu encontrar ninguém que se considerasse invejoso. Ele comentou que perguntou a um taxista se ele tinha inveja de alguém e ouviu na lata: "não senhor, eu sou é invejado!". É simplesmente um sentimento que ninguém em sã consciência assume em público, e quase ninguém assume nem para si mesmo... Por que será? Será que as pessoas simplesmente não sentem inveja ou será que é um sentimento tão vergonhoso que ninguém tem coragem de assumir?
Fiquei com isso na cabeça... Depois comecei a pensar nos sete pecados capitais e me veio uma luz: estes pecados estão diretamente relacionados com comportamentos que tivemos de assumir durante nossa evolução (enquanto espécie).
No caso da inveja, que é um sentimento mesquino e vil, o invejoso fica infeliz com a felicidade alheia. É como se a felicidade do invejoso dependesse da infelicidade do outro. Quer coisa mais politicamente incorreta que a inveja? (é, hoje em dia ser politicamente incorreto é muito pior que ser pecador ou vender a alma ao diabo).
Vou tentar explicar o cenário que me veio à mente: imagine um ser inteligente em um ambiente hostil, onde ele além de precisar caçar para sobreviver, ainda precisa atrair as fêmeas, sob o risco de não deixar descendentes e ter seus genes podados da face da Terra pelo efeito da seleção natural. Se reproduzir era então mais importante que tudo (em especial para os machos, para as fêmeas o problema é tradicionalmente menor). Agora imagine que este ser inteligente tem um rival que é mais forte, mais bonito, caça melhor e atrai mais fêmeas. É evidente que este rival precisa ser eliminado, o mais rápido possível. Fiquei pensando se a inveja não nasceu da necessidade de eliminar rivais brilhantes demais, que são bons em tudo, são bonitos e ainda atraem todas as fêmeas.
Neste ambiente ancestral, talvez matar um rival não fosse lá muito bem aceito pelo resto da tribo, em especial se esse rival é tão brilhante assim. No entanto, matar o rival na surdina pudesse ser uma solução razoável. E mais, é possível que o rival não representasse uma ameaça para apenas um homem e sim para vários.
Outra coisa que me veio à mente e me entristeceu um pouco, é que somos descendentes desses homens que se juntaram para matar criaturas belas e brilhantes em nome da competição. Será que a humanidade não poderia ser melhor em vários sentidos? O que me parece em relação à inveja, é que a herdamos e estamos condenados a sentir inveja, uns mais que outros, mas condenados. No ambiente atual as coisas são mais complicadas, não dá pra sair por aí armando emboscadas para os rivais. É preciso conviver com pessoas absolutamente mais bonitas e brilhantes que nós. É aí que acho que mora a tal da inveja, na constatação de que sempre há alguém melhor que eu em várias coisas e na outra constatação, a de que não posso fazer nada para eliminá-lo.
É evidente que há quem faça. Há quem mate, há quem machuque, há quem tire do caminho. Mas a maioria das pessoas não faz nada disso, a maioria nem admite que sente, mesmo que lá no fundo e de forma inofensiva, uma pontinha de inveja de outras.
Fiquei com isso na cabeça... Depois comecei a pensar nos sete pecados capitais e me veio uma luz: estes pecados estão diretamente relacionados com comportamentos que tivemos de assumir durante nossa evolução (enquanto espécie).
No caso da inveja, que é um sentimento mesquino e vil, o invejoso fica infeliz com a felicidade alheia. É como se a felicidade do invejoso dependesse da infelicidade do outro. Quer coisa mais politicamente incorreta que a inveja? (é, hoje em dia ser politicamente incorreto é muito pior que ser pecador ou vender a alma ao diabo).
Vou tentar explicar o cenário que me veio à mente: imagine um ser inteligente em um ambiente hostil, onde ele além de precisar caçar para sobreviver, ainda precisa atrair as fêmeas, sob o risco de não deixar descendentes e ter seus genes podados da face da Terra pelo efeito da seleção natural. Se reproduzir era então mais importante que tudo (em especial para os machos, para as fêmeas o problema é tradicionalmente menor). Agora imagine que este ser inteligente tem um rival que é mais forte, mais bonito, caça melhor e atrai mais fêmeas. É evidente que este rival precisa ser eliminado, o mais rápido possível. Fiquei pensando se a inveja não nasceu da necessidade de eliminar rivais brilhantes demais, que são bons em tudo, são bonitos e ainda atraem todas as fêmeas.
Neste ambiente ancestral, talvez matar um rival não fosse lá muito bem aceito pelo resto da tribo, em especial se esse rival é tão brilhante assim. No entanto, matar o rival na surdina pudesse ser uma solução razoável. E mais, é possível que o rival não representasse uma ameaça para apenas um homem e sim para vários.
Outra coisa que me veio à mente e me entristeceu um pouco, é que somos descendentes desses homens que se juntaram para matar criaturas belas e brilhantes em nome da competição. Será que a humanidade não poderia ser melhor em vários sentidos? O que me parece em relação à inveja, é que a herdamos e estamos condenados a sentir inveja, uns mais que outros, mas condenados. No ambiente atual as coisas são mais complicadas, não dá pra sair por aí armando emboscadas para os rivais. É preciso conviver com pessoas absolutamente mais bonitas e brilhantes que nós. É aí que acho que mora a tal da inveja, na constatação de que sempre há alguém melhor que eu em várias coisas e na outra constatação, a de que não posso fazer nada para eliminá-lo.
É evidente que há quem faça. Há quem mate, há quem machuque, há quem tire do caminho. Mas a maioria das pessoas não faz nada disso, a maioria nem admite que sente, mesmo que lá no fundo e de forma inofensiva, uma pontinha de inveja de outras.
terça-feira, 22 de abril de 2008
caranguejo samurai
Achei o documentário que procurava a anos... Acho que foi a primeira vez que ouvi falar de seleção natural da vida, não sei dizer quantos anos tinha, só sei que me marcou de maneira tal que muito tempo depois, quando assisti à aula de seleção natural, foi o que me veio à mente.
Como eu costumo dizer nesse blog, viva o YouTube!!!
Como eu costumo dizer nesse blog, viva o YouTube!!!
quarta-feira, 2 de abril de 2008
SEXO!!!
Como eu já disse aqui no blog, dou aula de genética básica para alunos dos mais diversos cursos das áreas de ciências biológicas e agrárias aqui da UFV. Já dei este curso também na UFJF, na época de professora substituta. Uma aula que sempre me frustrou pela baixa audiência foi a famigerada aula de mitose e meiose.
Na época que eu passava a lista de chamada, o pessoal assinava a lista e saía da sala disfarçadamente (às vezes nem tanto) durante a aula. Uma vez contei 58 nomes na lista e 5 alunos na sala. Nem preciso dizer que quase chorei de frustração (não chorei porque japonês não chora em público, senão tinha aberto o berreiro ali mesmo). Sempre me senti mais incompetente para abordar este assunto do que os outros...
Bom, depois de um tempo percebi que esta aula não desperta o interesse dos alunos simplesmente porque eles já viram isso em biologia celular, microbiologia, bioquímica, embriologia, histologia e talvez em outras matérias, além de terem visto no primeiro e no segundo grau. Haja mitose e meiose na cabeça deles e haja decoreba de nomes de fases (prófase, metáfase, anáfase, telófase), sem falar nas fases intermediárias, que eu não gosto nem de lembrar os nomes.
O problema é que não tem jeito, se eu não falar pelo menos de meiose em algum ponto do curso, pra lembrar a eles que a segregação dos cromossomos é independente, e que acontece o crossing-over em algum ponto entre a prófase1 e a metáfase1, não dá pra falar de ligação gênica, daí eles nunca vão saber porque algumas características parecem estar ligadas e não se segregam independentemente como previra Mendel. (Eu sei que você deve estar se perguntando para quê uma pessoa deve saber isso. Vale lembrar que são todos alunos de biológicas ou agrárias, portanto têm de ter um entendimento mínimo de como as características são passadas de uma geração para a outra e de como prever resultados de cruzamentos. Os agrônomos, veterinários, zootecnistas e engenheiros florestais trabalham diretamente com melhoramento, e sem entender genética, não há melhoramento razoável possível. Os biólogos deviam querer entender só pra entender evolução, que a meu ver é o que faz sentido dentro da biologia).
Resolvi então modificar completamente a minha aula. Sei, há bastante tempo, que para fazer com que um grande número de pessoas preste atenção em mim, basta falar de sexo. Isso funciona melhor que oferecer comida, caso não se trate de um bando de famintos. Se o objetivo era chamar a atenção para algo que acontece durante a meiose (o “crossing-over”), então estava justificado falar de sexo mais que em qualquer outra aula.
Joguei algumas palavras no quadro: vida, entropia, reprodução, sexo, morte, estrelas, e comecei a trocar idéia com os meninos (um observador mais desatento pode achar que sou esotérica, mas isso é só impressão). Todo mundo sabe que sexo é um assunto que anda na cabeça de todo mundo que já passou pela puberdade. Por que será que temos esse tipo de comportamento? Por causa da seleção natural. Veja bem, sexo é uma coisa que dá trabalho e gasta uma energia danada (isso sem falar no ridículo que algumas pessoas passam para convencer outra de que deve fazer sexo com ela). Se é assim, deve Haver um estímulo muito grande para que as pessoas busquem fazer sexo, e este estímulo é basicamente hormonal: seus hormônios fazem que você pense em sexo em pelo menos 90% do tempo. Se você acha que você não é assim é porque não pensou no assunto direito.
Me explico: se você está estudando, é porque acredita, em certa medida, que vai ser bem sucedido na vida, o que pode se refletir em um bom salário ou num trabalho decente e respeitado, afinal você está estudando pra isso. Se você quer ser respeitado ou ter dinheiro, é porque, direta ou indiretamente, está pensando em um dia construir uma família, ter uma companhia e filhos. Não está pensando em família? Não tem problema, você deve estar pensando em comer todas as mulheres que cruzem o seu caminho. Tá vendo? Não tem escapatória, até quando você passa noites em claro sem dormir estudando pra prova de genética ou de cálculo, está pensando em sexo.
Tem mais, o ato sexual em si é uma atividade extremamente prazerosa. Dizem os estudiosos que “sexo ruim é bom e sexo bom é ótimo”, ou seja, que o “fazer sexo” faz bem para a saúde porque libera várias substâncias que acabam gerando felicidade nas pessoas (isso vale pra maioria dos animais também). O resultado disso é que quanto mais se faz, mais se quer. É aí que entra a seleção natural. Se os animais são levados por instinto e por busca de prazer a fazer sexo, isso aumenta as chances de que se reproduzam e portanto que façam com que a espécie prospere no planeta.
Indo para o terreno da filosofia, Aristófenes criou uma lenda de que os seres humanos eram criaturas duplas, que podiam ser a junção de um homem e uma mulher, dois homens e duas mulheres. Eram criaturas maravilhosas e completas em si, a ponto de serem arrogantes. Zeus, o rei dos Deuses se incomodou com esta arrogância e decidiu dividir essas criaturas em dois, cortou e amarrou os umbigos. Desde então, todos nós estamos pelo mundo buscando a nossa outra metade, para que enfim possamos ser completos.
A maior parte da literatura de sucesso que já foi produzida pela humanidade fala de amor, sexo e traição. Freud, em sua teoria, aponta a sexualidade como responsável por moldar grande parte do nosso comportamento.
Curiosamente, conforme já mencionado neste blog, a origem da reprodução sexuada (que envolve meiose e fecundação) teve origem conjunta com a morte. Daí a associação que existe na literatura entre sexo e morte, as histórias todas de morrer de amor e tudo mais.
Quando se fala de vida, fala-se basicamente de organismos capazes de produzir cópias de si mesmo, ou seja, fala-se de reprodução. A vida não existiria no planeta caso não houvesse uma tendência à reprodução intrínseca nos organismos (daí porque a reprodução tem que estar no conceito de vida, seja ele qual for). Bom, se falamos de vida, também é preciso falar de entropia, já que a vida é uma espécie de “entropia negativa” (li isso em algum lugar, mas agora sou incapaz de citar a fonte). Em todo caso, o universo tende ao equilíbrio, que significa um estado de entropia máxima. Para “fugir da entropia”, é preciso gastar energia, daí a importância das estrelas (no caso o Sol) na nossa vida. (Isso tudo vem da idéia de que gastamos ATP nas nossas reações químicas, que no fundo mantêm a nossa vida. Este ATP vem, em última instância, do alimento que ingerimos. Se ingerimos carne, esta carne já foi viva, e, direta ou indiretamente se alimentou das plantas, que fizeram fotossíntese utilizando a energia solar).
Já que estamos falando de organização e do gasto de energia que isso requer, por que não entrar na mitose e na meiose? No YouTube (viva o YouTube!) tem vários vídeos com animações de mitose e meiose, vou colocar dois aqui só para ilustrar.
Sabemos que as características, bem como os cromossomos são passados de uma geração para a outra, de forma que damos origem, depois da fecundação, a organismos muito similares (que também têm algumas diferenças) a nós mesmos. Estes cromossomos nada mais são do que fitas de DNA complexadas com proteínas, que precisam se manter parcialmente relaxadas para que haja a transcrição de RNA. Quando se inicia a meiose ou a mitose, os cromossomos estão relaxados e se duplicam. É desta duplicação que depende a perpetuação das características. Depois disso, a cromatina se condensa, formando os cromossomos propriamente ditos. Se você não entende o porquê da condensação, uma boa metáfora é pensar em comprar lã. Você pode comprar um novelo, que está organizado, ou então pensar que as lojas poderiam todos os fios jogados em um balaio, e cada freguês que se vire pra pegar só a cor que lhe interessa. Com isso quero dizer que estando condensados, os cromossomos podem ser igualmente divididos nas células filhas, tanto na mitose quanto na meiose.
Acho que os vídeos são auto-explicativos. Espero que o texto tenha feito sentido. Espero que a aula tenha servido pra alguma coisa. Reparando o comportamento dos alunos, vi vários deles muito interessados. Um deles dormiu, e dois saíram da sala de aula. A boa notícia é que a sala continuou cheia (mais de 50, dos sessenta e poucos matriculados, ficaram). Pra quem contou cinco da primeira vez que tentou dar essa aula, foi um salto quantitativo e tanto. Espero que isso se reflita no aprendizado dos alunos, e que tenha servido pra alguma coisa, nem que seja pra entender porque gostamos tanto de sexo quanto odiamos aulas de mitose e meiose.
Na época que eu passava a lista de chamada, o pessoal assinava a lista e saía da sala disfarçadamente (às vezes nem tanto) durante a aula. Uma vez contei 58 nomes na lista e 5 alunos na sala. Nem preciso dizer que quase chorei de frustração (não chorei porque japonês não chora em público, senão tinha aberto o berreiro ali mesmo). Sempre me senti mais incompetente para abordar este assunto do que os outros...
Bom, depois de um tempo percebi que esta aula não desperta o interesse dos alunos simplesmente porque eles já viram isso em biologia celular, microbiologia, bioquímica, embriologia, histologia e talvez em outras matérias, além de terem visto no primeiro e no segundo grau. Haja mitose e meiose na cabeça deles e haja decoreba de nomes de fases (prófase, metáfase, anáfase, telófase), sem falar nas fases intermediárias, que eu não gosto nem de lembrar os nomes.
O problema é que não tem jeito, se eu não falar pelo menos de meiose em algum ponto do curso, pra lembrar a eles que a segregação dos cromossomos é independente, e que acontece o crossing-over em algum ponto entre a prófase1 e a metáfase1, não dá pra falar de ligação gênica, daí eles nunca vão saber porque algumas características parecem estar ligadas e não se segregam independentemente como previra Mendel. (Eu sei que você deve estar se perguntando para quê uma pessoa deve saber isso. Vale lembrar que são todos alunos de biológicas ou agrárias, portanto têm de ter um entendimento mínimo de como as características são passadas de uma geração para a outra e de como prever resultados de cruzamentos. Os agrônomos, veterinários, zootecnistas e engenheiros florestais trabalham diretamente com melhoramento, e sem entender genética, não há melhoramento razoável possível. Os biólogos deviam querer entender só pra entender evolução, que a meu ver é o que faz sentido dentro da biologia).
Resolvi então modificar completamente a minha aula. Sei, há bastante tempo, que para fazer com que um grande número de pessoas preste atenção em mim, basta falar de sexo. Isso funciona melhor que oferecer comida, caso não se trate de um bando de famintos. Se o objetivo era chamar a atenção para algo que acontece durante a meiose (o “crossing-over”), então estava justificado falar de sexo mais que em qualquer outra aula.
Joguei algumas palavras no quadro: vida, entropia, reprodução, sexo, morte, estrelas, e comecei a trocar idéia com os meninos (um observador mais desatento pode achar que sou esotérica, mas isso é só impressão). Todo mundo sabe que sexo é um assunto que anda na cabeça de todo mundo que já passou pela puberdade. Por que será que temos esse tipo de comportamento? Por causa da seleção natural. Veja bem, sexo é uma coisa que dá trabalho e gasta uma energia danada (isso sem falar no ridículo que algumas pessoas passam para convencer outra de que deve fazer sexo com ela). Se é assim, deve Haver um estímulo muito grande para que as pessoas busquem fazer sexo, e este estímulo é basicamente hormonal: seus hormônios fazem que você pense em sexo em pelo menos 90% do tempo. Se você acha que você não é assim é porque não pensou no assunto direito.
Me explico: se você está estudando, é porque acredita, em certa medida, que vai ser bem sucedido na vida, o que pode se refletir em um bom salário ou num trabalho decente e respeitado, afinal você está estudando pra isso. Se você quer ser respeitado ou ter dinheiro, é porque, direta ou indiretamente, está pensando em um dia construir uma família, ter uma companhia e filhos. Não está pensando em família? Não tem problema, você deve estar pensando em comer todas as mulheres que cruzem o seu caminho. Tá vendo? Não tem escapatória, até quando você passa noites em claro sem dormir estudando pra prova de genética ou de cálculo, está pensando em sexo.
Tem mais, o ato sexual em si é uma atividade extremamente prazerosa. Dizem os estudiosos que “sexo ruim é bom e sexo bom é ótimo”, ou seja, que o “fazer sexo” faz bem para a saúde porque libera várias substâncias que acabam gerando felicidade nas pessoas (isso vale pra maioria dos animais também). O resultado disso é que quanto mais se faz, mais se quer. É aí que entra a seleção natural. Se os animais são levados por instinto e por busca de prazer a fazer sexo, isso aumenta as chances de que se reproduzam e portanto que façam com que a espécie prospere no planeta.
Indo para o terreno da filosofia, Aristófenes criou uma lenda de que os seres humanos eram criaturas duplas, que podiam ser a junção de um homem e uma mulher, dois homens e duas mulheres. Eram criaturas maravilhosas e completas em si, a ponto de serem arrogantes. Zeus, o rei dos Deuses se incomodou com esta arrogância e decidiu dividir essas criaturas em dois, cortou e amarrou os umbigos. Desde então, todos nós estamos pelo mundo buscando a nossa outra metade, para que enfim possamos ser completos.
A maior parte da literatura de sucesso que já foi produzida pela humanidade fala de amor, sexo e traição. Freud, em sua teoria, aponta a sexualidade como responsável por moldar grande parte do nosso comportamento.
Curiosamente, conforme já mencionado neste blog, a origem da reprodução sexuada (que envolve meiose e fecundação) teve origem conjunta com a morte. Daí a associação que existe na literatura entre sexo e morte, as histórias todas de morrer de amor e tudo mais.
Quando se fala de vida, fala-se basicamente de organismos capazes de produzir cópias de si mesmo, ou seja, fala-se de reprodução. A vida não existiria no planeta caso não houvesse uma tendência à reprodução intrínseca nos organismos (daí porque a reprodução tem que estar no conceito de vida, seja ele qual for). Bom, se falamos de vida, também é preciso falar de entropia, já que a vida é uma espécie de “entropia negativa” (li isso em algum lugar, mas agora sou incapaz de citar a fonte). Em todo caso, o universo tende ao equilíbrio, que significa um estado de entropia máxima. Para “fugir da entropia”, é preciso gastar energia, daí a importância das estrelas (no caso o Sol) na nossa vida. (Isso tudo vem da idéia de que gastamos ATP nas nossas reações químicas, que no fundo mantêm a nossa vida. Este ATP vem, em última instância, do alimento que ingerimos. Se ingerimos carne, esta carne já foi viva, e, direta ou indiretamente se alimentou das plantas, que fizeram fotossíntese utilizando a energia solar).
Já que estamos falando de organização e do gasto de energia que isso requer, por que não entrar na mitose e na meiose? No YouTube (viva o YouTube!) tem vários vídeos com animações de mitose e meiose, vou colocar dois aqui só para ilustrar.
Sabemos que as características, bem como os cromossomos são passados de uma geração para a outra, de forma que damos origem, depois da fecundação, a organismos muito similares (que também têm algumas diferenças) a nós mesmos. Estes cromossomos nada mais são do que fitas de DNA complexadas com proteínas, que precisam se manter parcialmente relaxadas para que haja a transcrição de RNA. Quando se inicia a meiose ou a mitose, os cromossomos estão relaxados e se duplicam. É desta duplicação que depende a perpetuação das características. Depois disso, a cromatina se condensa, formando os cromossomos propriamente ditos. Se você não entende o porquê da condensação, uma boa metáfora é pensar em comprar lã. Você pode comprar um novelo, que está organizado, ou então pensar que as lojas poderiam todos os fios jogados em um balaio, e cada freguês que se vire pra pegar só a cor que lhe interessa. Com isso quero dizer que estando condensados, os cromossomos podem ser igualmente divididos nas células filhas, tanto na mitose quanto na meiose.
Acho que os vídeos são auto-explicativos. Espero que o texto tenha feito sentido. Espero que a aula tenha servido pra alguma coisa. Reparando o comportamento dos alunos, vi vários deles muito interessados. Um deles dormiu, e dois saíram da sala de aula. A boa notícia é que a sala continuou cheia (mais de 50, dos sessenta e poucos matriculados, ficaram). Pra quem contou cinco da primeira vez que tentou dar essa aula, foi um salto quantitativo e tanto. Espero que isso se reflita no aprendizado dos alunos, e que tenha servido pra alguma coisa, nem que seja pra entender porque gostamos tanto de sexo quanto odiamos aulas de mitose e meiose.
Assinar:
Postagens (Atom)